sylvia molloy: "viver entre línguas"

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Em que idioma pensa uma pessoa plurilíngue? Em que língua sonha? Como consegue armazenar tanta coisa numa cabeça só? Ainda que deva ser uma mão na roda falar vários idiomas, no dia a dia, devem acontecer algumas situações bem engraçadas em relação a isso. E é o que Sylvia Molloy tenta mostrar, junto com várias outras curiosidades e anedotas de quem vive entre línguas. "Viver entre línguas", inclusive, é o título desse pequeno e delicioso livro, editado pela @relicarioedicoes.

Sylvia nasceu em Buenos Aires, na Argentina, mas logo criança se viu falando tanto espanhol quanto inglês com a mãe e com o pai, respectivamente. Mais tarde, ela aprendeu o francês, mudando-se para França aos 20 anos de idade. Contando um pouco da sua vida e de outros escritores plurilíngues, como George Steiner e Elias Canetti, Sylvia nos diverte com suas memórias e nos faz refletir como seria uma vida atravessada por diferentes idiomas. Porque, claro, não se trata de uma simples tradução — falar outra língua é fazer conexões com um outro modo de pensar, outro modo de construir as frases e outras formas de encarar o mundo.

A língua carrega em si a história de um povo e diz muito sobre culturas. Dessa forma, a existência de palavras em um idioma e a falta delas em outro já demonstra o que merece ou não ser nomeado. É, afinal, verdade que dizer certas coisas em um idioma parece mais fácil do que em outros. Roland Barthes dizia que a língua não é nem progressista nem reacionária, é fascista: "porque o fascismo não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer". E por que não dizer que a língua também nos direciona a certos pensamentos e ações? A estrutura linguística, então, longe de ser imparcial, impacta e é impactada diretamente por questões sociais e políticas.

Livro bom é livro que desdobra os nossos pensamentos em mil e nos faz refletir sobre a sociedade. E, definitivamente, Sylvia Molloy conseguiu fazer isso em mim.

Gabi Barbosa