toni morrison: "o olho mais azul"

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O meu primeiro contato com Toni Morrison, que deixou esse planeta no início de agosto, com 88 anos. "O olho mais azul" começou como um empréstimo e acabou se tornando um presente. E eu sou muito grata à @incbeka por me dar esse tesouro que queria ler há tempos, nessa edição linda da @taglivros.

"O olho mais azul" é dolorido, e expõe algumas das consequências mais terríveis do racismo e do machismo — principalmente em relação às crianças (afinal, os adultos também já foram crianças um dia). O livro é narrado pela Cláudia, que imagino ser a voz de Toni Morrison ali, relatando passagens da vida de outra menina, a Pecola, que reza todos os dias para ter olhos azuis, assim como Shirley Temple. Sob o olhar cruel dos padrões de beleza, àquelas meninas negras, restava a zombaria das outras crianças em relação à sua aparência.

Nesse, que foi seu primeiro livro, Morrison também constrói as realidades que rodeiam Pecola, resgatando a história dos seus pais e indo na contramão da simplificação. A autora consegue mostrar os caminhos perversos que o racismo percorre, entre abusos e violência, e que se reproduz como um ciclo vicioso, humanizando mesmo os personagens mais detestáveis da trama.

Não foi um livro que consegui ler de uma vez; precisei retomar o fôlego algumas vezes antes de continuar. Mas as discussões levantadas por Morrison nessa obra de pouco mais de 200 páginas, merecem todas as leituras possíveis. A @companhiadasletras está lançando a nova edição desse livro, que eu acho que todos deveriam lê-lo.

"Toda noite, sem falta, ela rezava para ter olhos azuis. Fazia um ano que rezava fervorosamente. Embora um tanto desanimada, não tinha perdido a esperança. Levaria muito, muito tempo para que uma coisa maravilhosa como aquela acontecesse. Lançada dessa maneira na convicção de que só um milagre poderia socorrê-la, ela jamais conheceria a própria beleza. Veria apenas o que havia para ver: os olhos das outras pessoas."

Gabi Barbosa