ottessa moshfegh: "meu ano de descanso e relaxamento"

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Quando tudo o que se quer é só poder dormir por um ano inteiro. Se tem algo que podemos invejar nos ursos, é a capacidade de hibernar por meses. Estamos todos cansados, cada vez mais — é só perguntar para qualquer pessoa que cruzar seu caminho. Estamos doentes, sobrevivendo às custas de remédios, promessas milagrosas, e só quem tem dinheiro consegue tirar um ano sabático viajando pelo mundo. Ou descansando.

Em "Meu ano de descanso e relaxamento", escrito pela estadunidense Ottessa Moshfegh (e traduzido aqui no Brasil pela @julianacunha), acompanhamos a narradora sem nome que carrega todos os privilégios que você pode imaginar: é rica, parece modelo, mora num apartamentaço em Nova York e pode ficar uma vida inteira sem trabalhar — mas é assombrada por questões mal resolvidas que a fazem se entupir de remédios em doses cavalares para ver se a dor dá uma trégua. No período de um ano, ela promete para si mesma tentar relaxar. Então, sai do emprego em uma galeria de arte e se isola em casa, só saindo para comprar café e DVDs em uma loja de imigrantes egípcios próxima ao seu apartamento. Assim, ela pretende evitar ao máximo preocupações desnecessárias (ou contato com outras pessoas) e coloca todas as contas possíveis em débito automático.

Com a ajuda de uma psiquiatra excêntrica que receita remédios como se não houvesse amanhã para ver se cura a insônia interminável que protagonista diz ter, acompanhamos uma jornada maluca, intensa e tão correspondente com o tempo em que vivemos. Ainda que no início do livro, vejamos tudo de uma maneira superficial, percebemos que esse é um mecanismo da própria narradora para evitar se deparar com as complexidades da vida. É muito mais fácil encaixar as pessoas em estereótipos do que analisar as suas subjetividades. Assim também evitamos olhar a nós mesmas e encarar os problemas que nos afligem. Quando ao final, achei um pouco corrido demais, com uma solução meio insuficiente, talvez, mas a leitura é bastante fluida e me grudou às páginas até o final.

Gabi Barbosa