octavia butler: "kindred - laços de sangue"

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Kindred era um livro que há tempos já queria ler. Mas sabe quando você precisa de um distanciamento pra acalmar as expectativas? Esse distanciamento durou quase um ano, entre olhadelas pra ele na estante e outras leituras na frente. E aí o @leiamulheresbh votou que Kindred seria a leitura do clube no mês de julho. Foi a deixa. O nosso encontro ainda não aconteceu, será só na semana que vem, mas já quero trazer algumas questões sobre essa leitura.

Bom, Kindred conta a história de Dana, uma mulher negra na década de 1970 que, um dia, do nada, se sente muito tonta, desmaia e acorda em 1819. Infelizmente, essa volta no tempo não é a única vez, e Dana é obrigada a voltar em outras situações para o passado. Aos poucos, ela percebe que está conectada com algumas pessoas daquele tempo, seus antepassados, e que precisa zelar pela vida deles. O problema é que o período talvez seja o mais perigoso para uma mulher negra e, da maneira que pode, Dana luta pela sua sobrevivência.

Para além de pensar na obra como um lugar de aprendizagem sobre o perverso sistema escravocrata estadunidense, há situações que ele enriquece ainda mais essa discussão. No início do livro, nos deparamos com uma frase da Octavia Butler: “Comecei a escrever sobre poder, porque era algo que eu tinha muito pouco”, que permeia a narrativa em vários momentos. Inclusive nas hierarquias que ordenava as relações entre os negros escravizados naquele contexto, porque, em um mesmo grupo, as opressões não são iguais — pelo contrário, podem ser somadas, complexificadas.

Ela nos faz pensar como, naquele momento, para as pessoas escravizadas, lutar pela sua sobrevivência era uma maneira de resistência. E que, mesmo com toda a sabedoria, conhecimento e desenvolvimento do mundo moderno, uma mulher negra não conseguiria burlar as atrocidades do século XIX. Que livro dolorido. E necessário.

“Eu provavelmente estava menos preparada para a realidade do que a criança que chorava não muito longe de mim. Na verdade, ela e eu estávamos reagindo de modo muito parecido. Meu rosto estava banhado em lágrimas. E minha mente ia de um pensamento ao outro, tentando me desligar das chibatadas.”

Gabi Barbosa