rachel cusk: "esboço"

1010DE4A-305C-4676-814A-90DFB93EE408.jpg

"Esboço" é o primeiro romance de uma trilogia da escritora estadunidense Rachel Cusk, e tem feito um sucesso bastante grande lá fora — num nível já-não-aguento-mais-ver-foto-das-(lindas)-capas-dos-livros-por-aí. Mas eu consigo entender completamente o porquê.

Faye, protagonista do livro, é uma mulher nos seus 40 anos que vai à Grécia dar um curso de escrita criativa. Mas, em "Esboço", sabemos menos sobre Faye do que sobre as pessoas que cruzam o seu caminho ao longo dos dias (seu vizinho no avião, seu amigo e também professor Ryan, seus alunos do curso...). Mergulhamos nas suas subjetividades, percebemos suas motivações e ambiguidades, entendemos as suas inquietações. Faye conta tudo como se lembrasse perfeitamente dos diálogos, e nos faz pensar como — diferente da narração — a escuta é uma habilidade pouco valorizada. É um processo ativo que igualmente carrega as impressões, preconceitos e bagagens do sujeito que ouve, que interpreta a história.

Não é um livro para buscar uma reviravolta no texto ou para saber como vai terminar. É para se deparar com histórias diversas a partir de vários pontos de vista, que falam sobre assuntos tão banais, mas que nos atingem tanto: relacionamentos, filhos, profissão... A autora nos mostra que todas as pessoas podem se tornar interessantes, se você prestar atenção. E ouvir outras histórias (bem como ler outras histórias), é também uma ferramenta de autoconhecimento, ainda que se corra-se o risco de perder a linha tão sutil que nos separa dos outros. O "esboço", a meu ver, é essa tentativa de delinear-se a si mesma, encontrando uma forma num papel em branco, a partir de narrativas alheias, aquilo que faz sentido. Tomara que a @todavialivros publique os outros dois títulos por aqui, porque fui conquistada, hahah.

"Da mesma forma, eu estava começando a ver meus próprios medos e desejos manifestados fora de mim mesma, estava começando a ver na vida dos outros um comentário sobre a minha própria vida".

Gabi Barbosa