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É muito tentador começar esse texto dizendo sobre os séculos de silêncio que foram impostos às mulheres. Claro, é bem provável que a minha insegurança em escrever o que penso venha em grande parte daí, mas começo a criar uma antipatia em mim mesma por achar que é só por isso que não investi mais na minha própria escrita. Parece que crio justificativas para não colocar as palavras no computador ou publicá-las em qualquer lugar. Não nego que a questão de gênero esteja ligada com a corda bamba em que me encontro, mas só ela não é suficiente para explicar.

Acontece que o processo dentro da minha cabeça é rápido para algumas coisas e lento para outras. Consigo mudar de opinião e enxergar diferentemente as coisas de uma maneira dinâmica, mas a consequência e a assimilação dessa mudança leva um tempo. Não consigo falar sobre um livro que acabei de ler. Preciso de espaço, de distanciamento, de maturação. Em uma época tão incessante quanto a nossa, não falar de um filme antes mesmo do seu lançamento já é estar atrasado.

Inclusive, começo a questionar os seres humanos que conseguem falar tão abertamente de uma obra de arte sem sequer ter dado um tempo para o estômago digerir a refeição. Me parece uma atitude que aniquila qualquer chance de pensar melhor sobre o assunto; uma ótima deixa para se precipitar e falar besteira. Essa situação que se desenrola na minha cabeça, que me faz demorar a falar sobre o que leio-vejo-sinto, é, de uma forma bem insistente, um impedimento. Como se chegasse ao self-service às 14h: já pegaram as partes boas e tudo está frio, ninguém quer mais comer.

Para além, comecei a ter a impressão, de uns tempos pra cá, que há gente demais gritando online. Inúmeros portais, blogs, jornais, comentaristas, escritores, críticos, entusiastas. Berrando sobre tudo, sem deixar nenhum assunto escapar. A sensação é a mesma de quando estive nas praias de Salinas, no Pará. Todos aqueles carros parados na areia, cada um tocando uma música diferente e ninguém deixando o outro escutar as suas. Quase uma competição para saber quem é o rei dos alto-falantes. Reconhecer a minha voz no meio de tantas músicas incessantes tem sido um esforço além do comum, porque inevitavelmente nos apropriamos de algumas melodias para compor nossas próprias canções.

Essa é mais uma tentativa de dar vazão aos meus pensamentos, estimulada após conhecer as histórias de tantas mulheres que se aventuraram na seara da crítica cultural. Talvez por causa de todas elas eu tenha começado o texto daquela forma: o gênero aparece como um empecilho para o trabalho de muitas, e de fato o é. Os problemas precisam e devem ser levantados, discutidos, criticados — é necessário mostrar como toda uma estrutura impede que as mulheres possam escrever livremente sem precisarem matar alguns fantasmas antes (alô, Virginia Woolf). Mas esse lugar não pode também nos cegar e impedir de seguir em frente, porque é justamente isso que favorece a manutenção do sistema como ele é.

Cabe a nós o enfrentamento dentro das nossas possibilidades de ação. Não é ignorar a questão do gênero, mas não é tampouco mascarar a insegurança com uma situação que, por ora, não tem solução. É preciso ir com medo mesmo.

 
Gabi Barbosa