imagens do leitor: a experiência da leitura como instância da mediação

A leitura não é uma ação natural, precisamos ser ensinados a ler para ter acesso ao texto (HÉBRARD, 2011). Mas, uma vez aprendida, a leitura se torna um lugar de possibilidades infinitas. Especialmente nos dias de hoje, quando a circulação de livros é mais fluida e permite que mais pessoas tenham acesso à leitura e aos livros que eram antes considerados territórios dominados pelos eruditos.

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A leitura se trata de um processo de produção de sentidos que dá ao leitor a responsabilidade de construir um significado para a história. Segundo o historiador francês Roger Chartier (2011), uma história do ler afirmará que as “significações dos textos, quaisquer que sejam, são constituídas, diferencialmente, pelas leituras que se apoderam deles”. Mais do que “o que o escritor quis dizer”, devemos pensar o que o leitor conseguiu tirar daquele livro, as questões, os ensinamentos e as provocações que aquela leitura suscitou.

Esses significados não são imutáveis (SILVERSTONE, 2002), pelo contrário, quando são compartilhados, eles podem transitar, pluralizar e reverberar leituras, que são muito mais numerosas que o próprio livro. Mesmo que alguém leia a mesma obra que outra pessoa, a leitura nunca será a mesma, afinal, estamos falando de indivíduos diferentes que percebem e apreendem cada uma das passagens de maneiras distintas. Cada um de nós carrega uma bagagem cultural, econômica, social, geográfica e histórica que está junto conosco no momento da leitura.

Uma frase que circula nas mídias sociais, atribuída à escritora brasileira Ruth Rocha, pode ser útil para elucidar a questão: “o processo de leitura possibilita essa operação maravilhosa que é o encontro do que está dentro do livro com o que está guardado na nossa cabeça”. Nós não deixamos de ser nós mesmos ao ler o livro, por isso carregamos muito de nós mesmos para a história. E aí acontece o sentido reverso: também adicionamos sentido ao próprio livro, como um sistema de colaboração. Como se fosse um processo de preenchimento de lacunas deixadas pelo autor — cada leitor tem esse poder.

Assim, diferente do que muitos pensam, a leitura não é uma atividade passiva, pelo contrário: ela é um ato criativo e transformativo.

Roland Barthes (2004, p. 26), em O rumor da língua, fornece uma imagem bastante comum entre os leitores: “Nunca lhe aconteceu, ao ler um livro, interromper com frequência a leitura, não por desinteresse, mas, ao contrário, por afluxo de idéias, excitações, associações? Numa palavra, nunca lhe aconteceu ler levantando a cabeça?”. Para o autor, a interrupção, a “levantada de cabeça”, é, ao mesmo tempo, irrespeitosa e apaixonada. Irrespeitosa porque não permite que o escritor continue a sua reflexão, corta, suspende o texto. Mas é também apaixonada porque é desse texto que a interrupção se nutre, e para ele retorna.

Ainda para Barthes (2004), o processo da leitura não é só profundamente individual, como profundamente coletivo. Ele deriva de formas transindividuais (termo cunhado pelo autor) que remetem ao pertencimento de uma coletividade. Tanto o autor quanto o leitor partem de certos códigos, como a própria língua, a forma narrativa e estereótipos que são anteriores à existência de ambos, mas que são uma espécie de passagem, não são imutáveis. Ler livros é demonstrar que não há uma verdade objetiva ou subjetiva ao texto, é demonstrar que se pode imprimir um determinado comportamento a ele, mantendo-o vivo (BARTHES, 2004, p. 29).

Utilizando termos práticos, o pesquisador francês Jean-Marie Goulemot (2011) suscita que a relação do leitor com o livro também alcança dimensões fora-do-texto o que, para o autor, compreende três lugares diferentes: o fisiológico, o histórico e a biblioteca. No fisiológico, ele mostra as questões físicas que englobam a leitura. Existe na leitura uma posição e uma atitude específica que variam conforme a disposição de cada um. O corpo sentado, deitado ou alongado tem uma prática que prefere locais solitários ou locais públicos, que desenvolve a leitura em dias chuvosos ou dias ensolarados, que acende velas ou abajures como uma espécie de ritual. O próprio físico reclama, cansa, fica sonolento, boceja, experimenta dores, formigamentos, sofre de cãimbra.

No histórico, Goulemot fala sobre a história que existe em nossa cabeça que pertence a uma coletvidade, similar ao que disse Barthes sobre as formas transindividuais, que não dependem tanto de nós para existir. Lê-se a partir de um contexto histórico-político-social ao qual se está submetido e ao qual se acredita, levando em consideração que o autor da obra também estava submetido a um contexto histórico-político-social específico. E, por fim, a biblioteca: para Goulemot, toda leitura é uma leitura comparada. Toda leitura faz emergir as antigas leituras que já fizemos, suscitando e questionando os sentidos já adquiridos.

Uma história se alimenta também de outras histórias. Mas, diferente da comida, a leitura nunca se esgota. Quanto mais lemos, mais nos preenchemos daquela história e mais sentidos damos à ela. Portanto, cada leitor é único e cada saber é irrepetível. María Teresa Andruetto (2017) diz que “[…] a literatura não é lugar de certezas, e sim o território da dúvida, e nada mais libertário e estimulante do que a possibilidade de duvidar, de enfrentarmo-nos a nós mesmos para pôr em questão nossas certezas”.

Todas essas experiências só podem existir a partir de um único indivíduo: o leitor. Para Umberto Eco (2011, p. 37), o texto é uma máquina preguiçosa que só pode funcionar a partir da interpretação de alguém. Ele não existe sozinho. Tanto que, os próprios escritores, quando escrevem um texto, já imaginam seu leitor-modelo, expressão cunhada por Eco. Esse leitor-modelo coopera com o texto exatamente da maneira que o escritor pensou. Percebe todas as referências, entende o propósito da história e capta os sentidos mais profundos dela. Ou seja, o leitor-modelo não subverte a história, não a lê de maneira “errada”.

Acontece que nós não somos leitores-modelo. Nós somos leitores empíricos. Os leitores empíricos muitas vezes ignoram a regra do jogo, não reconhecem as referências e se apropriam totalmente um texto. Eles não só interpretam um livro como também o usam. A diferença para Eco (1994, p. 14) entre interpretação e uso é considerar que o uso é algo totalmente particular. Ele imagina a ficção como um bosque, onde cada caminho leva a uma interpretação diferente, mas o uso é criar um jardim particular onde só você pode caminhar. Isso acontece quando confundimos a nossa própria história com a história do personagem, relembramos de ocasiões que só aconteceram conosco.

Mesmo que o leitor-modelo seja um tipo de leitor que o escritor almeja, ele é pouco provável, porque não se lê num vácuo: todo leitor possui história, crença, opinião, localização geográfica e tantas outras características que o perpassam que, inevitavelmente, direcionam e conduzem a leitura. A leitura é uma mediação, algo que contribui para a nossa capacidade de entender o mundo, segundo Roger Silverstone (2002, p. 13), de produzir e de compartilhar seus significados. Assim, o livro não pode ser visto como algo que busca unificar a experiência, mas sim um lugar que permite várias trajetórias do sentido. Um espaço propício para o que se procura, afinal, na literatura: o prazer da leitura.

A sociabilidade é um dos lugares da mediação (MARTÍN-BARBERO, 2003). Ela é esse retorno às relações pessoais, tanto com família e amigos quanto com outras pessoas do nosso convívio. E, apesar da leitura se constituir, hoje, de uma ação solitária, não se pode opor intimidade e sociabilidade. Para a antropóloga francesa Michèle Petit (2013), “o íntimo e o compartilhado estão ligados de modo indissolúvel no ato de ler. Ao ler, muitas vezes experimentamos ao mesmo tempo nossa verdade mais íntima e nossa humanidade compartilhada.”

A experiência de uma leitura coletiva, como em grupos de leitura, tem a capacidade de modificar as leituras solitárias anteriores e alargar o sentido do livro. Mais do que isso, a literatura tem a capacidade de formar grupos e de transformar grupos em comunidades, amigos. O livro propicia uma conexão entre pessoas que leram e gostaram do mesmo livro, provocando um companheirismo e uma união. Nas palavras da professora Luzia de Maria (2009), “quem gosta tanto quanto nós do livro pelo qual nos apaixonamos vira amigo”.

No cenário que nos encontramos, os clubes do livro aparecem hoje como uma forma de enfrentamento dos grupos marginalizados contra instituições e narrativas hegemônicas. Não à toa essas discussões estão cada vez mais populares e numerosas no Brasil. Dessa maneira, o livro, para além de um objeto que suscita o prazer da leitura, se coloca como um agente transformador, uma maneira de lidar com a realidade a partir de um mundo imaginário — não só levantando questionamentos sobre o que vivemos mas também apontando possibilidades para outras vivências e resistências.


Referências bibliográficas

ANDRUETTO, María Teresa. A leitura, outra revolução. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2017, 168 p.
BARTHES, Roland. O rumor da língua. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2004.
CHARTIER, Roger. As revoluções da leitura no ocidente. In: ABREU, Márcia (org.). Leitura, história e história da leitura. Campinas: Mercado de Letras, 1999. 640p.
CHARTIER, Roger. (org.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2011.
ECO, Umberto. Lector in fabula: a cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.
GOULEMOT, Jean-Marie. Da leitura como produções de sentido. In: CHARTIER, Roger (org.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2011.
HÉBRARD, Jean. O autodidatismo exemplar. In: CHARTIER, Roger (org.). Práticas da leitura. São Paulo: Estação Liberdade, 2011.
MARIA, Luzia de. O clube do livro: ser leitor — que diferença faz? São Paulo: Editora Globo, 2009.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2003.
PETIT, Michèle. Leituras: do espaço íntimo ao espaço público. São Paulo: Editora 34, 2013.
SILVERSTONE, Roger. Por que estudar a mídia. São Paulo: Editora Loyola, 2002.


Gabi Barbosa